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Um caixa eletrônico chamado Malvina
especial Wagner Gorab

    Malvina segurou a caneca com força, espiou entre os fios dourados de sua franja lisa “na chapa” e bebeu o café com leite num gole só. Com pressa, talvez arrependida por perder tempo naquela manhã ensolarada, disparou: “É rápido? Tenho que pagar o carnê da prestação e tudo fecha antes da uma hora no sábado”. A bolsa de camurça marrom no colo revelava a posse de algo precioso, o pagamento em “cash” recebido na noite anterior saldaria a prestação da geladeira, antes de virar bijuteria, perfume ou lingerie. Pedi para que fôssemos para uma mesa no fundo do estabelecimento, por conta do barulho metálico daquele boteco na Rua Major Sertório. Liguei o gravador, pedi uma média e ofereci mais um café com leite à garota. “Vivo um dia de cada vez”, diz, com um sorriso tímido, temeroso por mostrar a falta do dente canino superior direito. De calça jeans justa, top turquesa, sandálias plataforma de cortiça, brincos de argolas laranja e maquiagem corretiva, a garota de “vinte e poucos anos” logo se intitula “profissional da noite” – apesar de trabalhar em qualquer horário. Seu escritório é a calçada, um ponto em frente ao Love Story, tradicional reduto de garotas de programa, mauricinhos e boêmios no centro de São Paulo. Malvina “pega as sobras”, gente que sai da boate sozinha, no zero a zero e quer uma “alegria rápida” depois de encher a cara e esvaziar o bolso. Segundo ela, inaugurou um novo filão naquele ponto. “Chego sozinha, não tenho ‘agente’, sou dona de mim mesma. Afinal de contas, quem precisa de proteção de bandido?“. O preço é combinado no momento, depende da hora e da aparência do freguês.  Moço bonito, mais novo e sóbrio pode desembolsar apenas 20 reais, como já aconteceu. Um sacrifício maior pode sair por até 100 reais. “Já peguei muito filho de barão. Já peguei no carro, no táxi e já fiz até ali”, apontando um recuo de um prédio ao lado da boate. “Lugar a gente arranja”.
    Nascida em Bauru, interior de São Paulo, Malvina, órfã de pai e mãe, cresceu em abrigos infantis e depois da maioridade foi para a rua, onde começou a fazer programas. A jovem afirma que não escolheu a profissão, a profissão a escolheu. “Não tenho estudo, nem perspectiva, só um corpo bem feito e um belo porta-malas”. O começo foi assustador, mas até que rápido e certeiro. Num dia não tinha o que comer, no outro pode comprar o seu primeiro par de brincos. Hoje se orgulha por ter mais de 30 diferentes modelos. Defende o raciocínio de quem não precisa esperar o contracheque no final do mês. “Meu corpo é como um caixa eletrônico: basta abrir a porta, introduzir e sacar o  dinheiro”.  Como muitas jovens aspirantes a celebridade, iludidas pelo sucesso instantâneo e um futuro melhor, mudou-se para São Paulo há dois anos, com o sonho de trabalhar como dançarina em programas de TV. “Já conheci até um produtor” – atrás da franja, os olhos brilham pela primeira vez. Acabou no centro de São Paulo e hoje divide uma kitinete com Maralice, um travesti de 17 anos, que conheceu na rua, após uma blitz policial que quase as levou em cana. Essa sorte ela teve até agora, nunca foi presa. “Vai muito da simpatia, às vezes um sorriso já facilita tudo com os Mikes – policial, no jargão das prostitutas”. E se um dia o caixa eletrônico deixar de ser automático? “Até lá já estarei no cheque especial”.
    Viver, para ela, é um crediário cheio de parcelas infindáveis, como as da sua primeira geladeira. Paguei a conta e ela sorriu elegante, como eu ainda não havia percebido. O seu olhar sorriu também, com pressa de futuro. Neste sábado de manhã, aos vinte e poucos anos, Malvina sabe que o tempo é curto. E como ela mesma lembrou, em uma determinada hora, o comércio fecha.

prostitutas-picasso

escrito por Guti

março 29, 2010 às 11:34 am

postado em Sem categoria

um comentário

Um Comentário para 'Um caixa eletrônico chamado Malvina
especial Wagner Gorab'

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  1. Lindo texto!!!!

    Livia

    29 mar 10 em 19:11

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