Pessoal e intransferível
por Zeca Gutierres
O desfile passou e imaginei que não iria comentar. Nem sou crítico, repito aqui. Não tenho esse talento. Mas sonhei com isso, ou algo me tirou o sono por conta disso. Em meio à correria de editar o Glamurana, tive pouco tempo para ver desfiles. Vi três ou quatro. Uma vergonha, para um veículo que quer falar de moda. Nem pedi textos pra Camila Yahn, nossa colunista de moda, que estava estatelada com tanto trabalho também no site de Joyce Pascowitch. Mas algo me incomodou no desfile de Marcelo Sommer. Não a roupa, porque eu gostei da coleção. Mas o formato do desfile. Me lembro de, há alguns anos, quando a música eletrônica dominava a cena musical, Sommer fez um desfile com amigos na passarela. Lá na ponta, perto dos fotógrafos, a ideia era fazer uma dança, bem pessoal e instransferível. Foi memorável a energia daquele desfile. Sommer vivia aquela alegria. Ele é um dos estlistas mais sensíveis da São Paulo Fashion Week. Daqueles que imprime no trabalho o que está passando. Hechcovitch é cérebro, Sommer é coração. No desfile dessa sexta-feira, o coração de Sommer estava triste, sem cor, carvão na passarela e amigos tristes, desfilando, tentando não cair ao andar em cima daquela sujeira toda. Não foi um desile que arrepiou. Deu aperto no coração. Sufocante e sombrio. Diferente das caveiras do masculino de Herchcovitch, que brincam com a morte mas imprimem o lógico do trabalho dele. Prefiro o Sommer colorido. Mil vezes. Com trilha sonora pra cima, com amigos sorrindo. É isso.

Foto: Reprodução site Glamurama
