Como viver junto, fazer mundos
por Camila Yahn
Engraçado que, quando a Lizette Lagnado foi curadora da 27 Bienal de São Paulo, o tema foi “Como Viver Junto”, que é superpertinente para os nossos tempos. Nessa edição da Bienal de Veneza, que eu tive a oportunidade de visitar recentemente, o tema era Fari Mundi (Fazer Mundos). A arte pensa no coletivo, nas colaborações entre instituição, artista, galeria e curador. Não sei como é na prática, mas eu sinto que o coletivo. a troca e o respeito ao espaço do outro é muito mais presente nesse cenário. Diferentemente da moda, onde reinam a falta de diálogo, a competição pura e a guerra de egos. O ego, para mim, é uma burrice. Eu já não confio em quem tem ego chato. Olha, eu vou falar que não é fácil. Em muitos trabalhos que faço tenho que administrar as ideias e expectativas do editor com as vontades do fotógrafo, do stylist e do maquiador. Todos trabalham sob um mesmo tema, mas cada um tem um olhar sobre ele e vai fazer o possível (até cara feia) para impor sua ideia. E vai trabalhar infeliz se seu argumento não for suficiente. Poucos profissionais se abrem para uma conversa. Parece que o equilíbrio, fundamental, não é possível. Por que alguém acha que uma pessoa pensa melhor do que cinco? Ao colocar o ego em primeiro lugar, a gente esquece para quem estamos trabalhando e quais as primeiras necessidades do “cliente” com esse trabalho. Se você não entende a revista ou o tal cliente, e se não coloca na receita os ingredientes que eles precisam, o trabalho não vai rolar. Às vezes, meu querido colaborador, as ideias da sua cabecinha não conversam com a realidade deles. Com educação eu tento abrir uma conversa, mas tenho que ouvir coisas do tipo: “Mas se fosse na ‘Vogue’ Paris eles fariam…”, “Se fosse na ‘Vogue’ bla bla bla…”, “É por isso a gente tá atrasado no Brasil”… and so on. Realmente, estamos muuuito para trás, mas esta é a nossa história. O melhor que a gente faz aqui é o padrão de lá. Não se trata apenas de ter profissionais talentosos, o buraco é lá embaixo. Começa com educação, com acesso à informação, com boas oportunidades de trabalho e de vida (acesso a viagens, cinema, arte, literatura, design etc). O leitor tem que ser educado, mas do jeito que tá, fica difícil. Quem é que vai consumir a moda que a gente sonha? Eu? Você? Nossos amigos? Não é muito pouco para que um produto seja comercializado (seja uma revista, um jornal, uma roupa)? O que interessa na hora de escolher uma revista é ver se ela tem dicas de beleza, regimes milagrosos, 1000 maneiras de usar a camisa branca, entrevistas com celebridades e depoimentos emocionantes. É pouco e sempre será se a gente continuar a comparar nosso trabalho eternamente com o que acontece em Londres, Paris, Nova York… Vamos inverter a situação e construir o nosso mundo para contar aos outros mundos a nossa história.


Adorei… realmete é isso o que acontece. Trabalho com moda desde 2001, e o que mais acontece é que a moda é fútil, os profissionais confundem educação e respeito com vaidade, essa é uma boa discussão.. vale fazer um debate, ia ser hilário… é quase vergonhoso, pouquissimas pessoas sabem o que realmente estão falando..
Eslavos
3 dez 09 em 15:12
BRAVO! CLAPS, CLAPS
Fernanda Manzano
15 dez 09 em 16:05