A Índia é pop
por Sarah Maluf
Quem não conhece o malucão Arthur Veríssimo da revista “Trip”, com suas viagens a lugares que poucos querem ir, mas que, no fundo mesmo, só vai quem tem coragem, fôlego e espírito aventureiro? Arthur vai lançar o primeiro livro, “KarmaPop”, que traz um resumo das muitas viagens que fez à Índia. Ele falou com a gente sobre tantas andanças e algumas comparações pertinentes daquele continente com o Brasil.

Como começou seu interesse pela Índia? “Minha mãe era professora de yoga. Fui me ligando nessas coisas, meu pai lia livros incríveis e aos 16 anos descobri um guru, o Osho, e enlouqueci com a filosofia dele. Naquela época era todo mundo punk e eu seguindo o cara… Aí fui parar em San Bernadino, na Califórnia, numa comunidade, e pirei com as mulheres, as viagens, as músicas.”
O que a Índia tem que falta no Brasil? “A população de 1 bilhão de pessoas. A Índia é o berço de várias religiões, tem mais de cinco mil anos de história. Lá, a minoria, que é muçulmana, é de 25 milhões de habitantes. É fascinante.”

Qual a cidade ou vilarejo você mais gostou? “São tantos, já fiz 17 viagens à Índia. Percorri desertos, o Himalaia, muitos palácios e templos. Na Índia a paisagem muda constantemente, é fabuloso. Mas, as quatro cidades que caíram o néctar da imortalidade (durante a batalha pela posse da kumbh, jarra para os hindus, quatro gotas de amrit, néctar sagrado, caíram na Terra, em Allahabad, Haridwar, Nasik e Ujjain, as quatro cidades onde o festival da Kumbh Mela tem lugar) são lugares que visitei e me emocionam bastante. Participei de vários rituais dali.”
Em quais aspectos a Índia está à frente dos países desenvolvidos? ”Ela está sempre recomeçando, e os traços de sua história estão ali. É um país com muita disciplina, e o povo é muito maleável. A herança dos mercadores, religiosos, cientistas, matemáticos, e, inclusive, da medicina indiana, é enorme. A medicina ayurvédica, adormecida no período da colonização inglesa, é um bom exemplo, assim como a yoga, práticas que tomaram conta do mundo inteiro. Considero a Índia uma fonte inesgotável de sabedoria, ensinamento e perrengues.”

Quais perrengues? “Militares, terrorismo, comida, água. Uma vez fui a um banquete e me ofereceram várias comidas. No outro dia parecia que eu estava com cinco meses de gravidez. Estava indo para Varanasi, perdi o voo e precisei pegar um trem. Viajei de 3 classe passando muito mal. Foi bravo, viu.”
E o que o viajante precisa fazer para evitar situações como essa? “Lá, o cuidado deve ser redobrado, porque até a água mineral lacrada pode estar adulterada.”

Qual a prática mais fora do comum que você conheceu por lá? “Fora do comum já é chegar à Índia. As peregrinações me tocam profundamente. Uma vez fiz uma caminhada até o Monte Kailash, supra-sumo das peregrinações. É um lugar magnetizado, milhões de pessoas já fizeram essa rota, muitos homens permaneceram em cavernas, muitos se iluminaram.”
Quais as dicas para quem planeja uma viagem à Índia? “Não ir preocupado, ler bons livros, bons guias de viagem, como “Vislumbres da Índia”, de Octavio Paz. Ir de mente aberta. Sugiro ir para o Himalaia e depois dar um pulo na Amazônia, para ver os contrastes do planeta.”
Como foi o processo de criação do livro “KarmaPop”? “Nós pegamos negativos e cromos dos meus anos de experiências pela Índia. Foi um processo demorado, este é meu primeiro livro. Demorei porque sou perfeccionista pra caramba. O lançamento está marcado para setembro.”

